Friday, 20 February 2009


**



Photobucket




solidão


Um mar rodeia o mundo de quem está só. É

o mar sem ondas do fim do mundo. A sua água

é negra; o seu horizonte não existe. Desenho

os contornos desse mar com um lápis de

névoa. Apago, sobre a sua superfície, todos

os pássaros. Vejo-os abrigarem-se da borracha

nas grutas do litoral: as aves assustadas da

solidão. «É um mundo impenetrável» diz

quem está só. Senta-se na margem, olhando

o seu caso. Nada mais existe para além dele, até

esse branco amanhecer que o obriga a lembrar-se

que está vivo. Então, espera que a maré suba,

nesse mar sem marés, para tomar uma decisão.



Nuno Júdice

in poesia



**

Monday, 16 February 2009

*




Photobucket



Once in the dream of a night I stood
Lone in the light of a magical wood,
Soul-deep in visions that poppy-like sprang;
And spirits of Truth were the birds that sang,
And spirits of Love were the stars that glowed,
And spirits of Peace were the streams that flowed
In that magical wood in the land of sleep.



- Sarojini Naidu






*

Friday, 6 February 2009

**




Photobucket







Juegas todos los dias con la luz del universo.


subtil visitadora, llegas en la flor y en el agua.

...




Pablo Neruda


**

Sunday, 1 February 2009


**



Photobucket






De que sedas se fizeram os teus dedos,
De que marfim as tuas coxas lisas
De que alturas chegou ao teu andar
A graça de camurça com que pisas.

De que amoras maduras se espremeu
O gosto acidulado do teu seio,
De que Índias o bambu da tua cinta,
O oiro dos teus olhos, donde veio.

A que balanço de que onda vais buscar
A linha serpentina dos teus quadris,
Onde nasce a frescura dessa fonte
Que sai da tua boca quando ris.

De que bosques marinhos se soltou
A folha de coral das tuas portas,
Que perfume te anuncia quando vens
Cercar-me de desejo a horas mortas.





José Saramago

in inventário


**


Thursday, 29 January 2009



**






Photobucket


O beijo da quilha

na boca da água

me vai trocando entre céu e mar,

o azul de outro azul,

enquanto

na funda transparência

sinto a vertigem

da minha própria origem

e nem sequer já sei

que olhos são os meus

e em que água

se naufraga minha alma


Se chorasse, agora,

o mar inteiro


me entraria pelos olhos




Mia Couto

viagem






**


Monday, 26 January 2009


**







Photobucket







Sem outro intuito

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.



Luís Miguel Nava

Vulcão I






**





Page copy protected against web site content infringement by Copyscape